Mosca na sopa….e agora na ricota!!!!!!!

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Mosca na sopa....e agora na ricota!!!!!!!

Se não bastasse a soda cáustica, ureia e outros componentes adicionados ao leite, a indústria brasileira de laticínios resolveu inovar ainda mais. Comprei uma ricota premiada com recheio de mosca morta!!! Que controle sanitário é esse? Infelizmente não me lembro a marca para reclamar formal e juridicamente. Mas fiquem atentos, pois não é só o Kinder Ovo, adorado pelas crianças, que vem com surpresinhas!!!

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Sem Gabo, Cem Anos de Solidão

 

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Ramon Gusmão, 17 de abril de 2014

Crônica de uma morte anunciada? Nem todos esperam, mas sabemos que ela vem. Pode durar um século, como a saga dos Buendía, ou um pouco menos. O certo é que a morte de Gabriel García Márquez, aos 87 anos, nesta quinta-feira, 17 de abril de 2014, deixará muito mais que Cem anos de Solidão.

Tal qual seu realismo mágico, Cem anos foram suficientes para torná-lo um imortal, garantir-lhe o Nobel de Literatura de 1982 e eternizar o escritor colombiano entre os clássicos da literatura. Deveria ter 16 ou 17 anos quando li a obra-prima de Gabo e comecei a entender o mundo ao meu redor. Fui arrebatado pelo realismo fantástico, que García Márquez negava existir.

Mas a imagem das formigas devorando a casa da família Buendía, para mim é tão real quanto a aula de jornalismo do Relato de um náufrago, ou o sonho de Simón Bolívar em construir uma grande nação latino-americana, no romance histórico O general em seu labirinto. E o que dizer da paixão eterna de O amor nos tempos do cólera?

Seja na fantástica história de uma família, que se confunde com a trajetória da Colômbia e da América Latina, ou no realismo indispensável ao trabalho de qualquer jornalista, Gabriel García Márquez conseguiu Viver para contar o que viu, ouviu e imaginou.

Por isso, sentiremos solidão, muito além de Cem anos. Mas quem a preencherá? Gabo dizia que, depois da morte do avô que o criou e tanto influenciou, não havia acontecido nada de interessante. A morte foi tema recorrente na obra do escritor, com funerais, outonos, labirintos, sequestros, naufrágios. De carona no realismo mágico, vou-me embora para Macondo, quem sabe lá encontrá-lo-ei.

 

Todo dia é dia de índio

As mais recentes manifestações de indígenas em várias regiões do país, inclusive no dia em que entraram no Plenário da Câmara dos Deputados para pressionar vossas excelências, expõem de forma assustadora as contradições brasileiras.

Não parece curioso ou, no mínimo, estranho, que o mesmo governo responsável pela criação de cotas, bolsas e vantagens para indígenas em universidades públicas federais queira agora tirar-lhes o direito inalienável e histórico à terra? E não é inacreditável que os senhores e as senhoras ditos representantes do povo e eleitos com tal finalidade tenham corrido de medo dos índios no Congresso Nacional?

O direito à terra foi o primeiro a ser extinto, no contato com os colonizadores portugueses. Desde então, são mais de cinco séculos de subjugação e resistência. E o conflito vai durar enquanto o Brasil não fizer a tão sonhada e esquecida reforma agrária. Para se ter ideia do tamanho do problema, apenas uma área disputada por indígenas e fazendeiros, no Mato Grosso do Sul, que gerou a morte do terena Oziel Gabriel, em maio de 2013, tem 17 mil hectares.

Por causa da grilagem, das fazendas com áreas equivalentes a muitos países, e dos conflitos pela posse da terra, a Constituição de 1988 determinou a demarcação de terras indígenas pela União. O prazo seria de cinco anos, a partir da promulgação da Carta Magna.

 

Mas não conseguimos cumprir a lei. Algumas hipóteses: cinco anos foi um prazo arbitrário, sem nenhuma base racional, científica, lógica; não se levou em consideração o fato de que as culturas e as populações indígenas são dinâmicas, estão em constante transformação; ou simplesmente porque descumprir a lei é a regra geral e deveria ser o artigo 1º da nossa Constituição. Ademais, a tese segundo a qual os diferentes devem ser tratados de forma diferente e de que a nação brasileira tem uma dívida histórica com esses povos parece ter sido esquecida depois da chegada do PT ao poder.

No entanto, basta prestarmos atenção em alguns hábitos diários para lembrar um pouco do extraordinário legado indígena. De quem herdamos, afinal, o gosto pelo banho, as redes onde dormimos e descansamos nas casas de praia e fazenda, a farinha de mandioca e as tapiocas oferecidas nos cafés da manhã de hoteis e restaurantes? O que dizer então do modo de vida sustentável, buscado agora como a salvação da humanidade e do planeta Terra?

Apesar de explícito e decisivo na mestiçagem brasileira, para alguns o legado indígena não é exatamente esse. Estaria associado à preguiça, indolência, ao oportunismo, atraso, tudo que de pior pode existir em nós. Esses “alguns”, na verdade muitos, são claramente defensores do agronegócio que sustenta o PIB e a balança comercial brasileira já há algum tempo. Em maio, por exemplo, a produção recorde de soja foi a responsável por segurar as exportações. E o pífio crescimento da economia só não é pior porque a agropecuária registrou aumento de 9,7%, nos três primeiros meses do ano.

Sem condenar a produção de alimentos para o mundo e sem desequilibrar uma balança já descalibrada, como então contrariar os interesses dos donos da terra, dos históricos capitães hereditários, dos ruralistas, reconhecidos como desbravadores, heróis e trabalhadores incansáveis, em oposição aos preguiçosos indígenas? O governo, pragmático, sabe exatamente de que lado está, apesar de a herança indígena estar por toda parte, em todos nós.

A cidade como ela é

7h30 da manhã. Quarenta minutos depois de uma viagem no metrô que trafega em velocidade de carroça, onde trabalhadores seguem calados e resignados, chega-se ao Setor Comercial Sul. Carros e motoristas atrasados disputam espaços, centímetro a centímetro, buzinam, discutem, xingam. Uma vaga no estacionamento vale uma vida!

Quando o sinal fecha, vendedores se aproximam e oferecem tudo que se pode imaginar. Óculos chineses, água mineral de origem duvidosa, balas e doces são os mais comuns. Outros distribuem jornais e panfletos. Apesar de não querer, todos aceitam, amassam e jogam pelas janelas.

Uma olhada para o lado e, nas calçadas e ruas do centro da capital, os “flanelinhas” e “guardadores de carros” loteiam áreas públicas. Mal sabem eles, com seus coletes numerados pelo Estado e perseguidos pela polícia, que as empreiteiras fazem o mesmo em áreas nobres da cidade. Os “grileiros”, também chamados de fazendeiros, usam “jeitinho” parecido para plantar soja, criar gado e alimentar o mundo. E os políticos? Ah, esses ocupam cargos, gabinetes, partidos, palácios, o Congresso, a Praça dos Três Poderes, a Esplanada dos Ministérios, o país. São como os ratos de A Peste.

Há ainda os maconheiros. Eles vendem, compram, enrolam cigarros e fumam a erva sem se importar com quem passa, a que horas e em quais condições psicológicas (ou psicotrópicas) vão trabalhar. Da polícia fazem pouco caso.

Já os viciados em “pedra”, apesar de serem os caçulas da vadiagem, se destacam no cenário, seminus, famintos, alucinados. Não sabem o que querem, se querem, andam sem rumo “em busca de uma dose violenta de qualquer coisa”, nos becos sórdidos do Setor Comercial Sul. Ao anoitecer, sente-se o perfume das “damas da noite”, são as “primas”, reconhecíveis de longe. E, no dia seguinte, tudo volta ao normal, se repete, na cidade como ela é.